22 de abril de 2013

Bailarina


Ela era diferente. Insistia em ser assim. Odiava padrões, rótulos ou valores impostos pela sociedade. Na verdade ela era bem crítica, quase insuportável se não fosse pela sua doce forma de explicar porque ela era assim. E foi por esse seu jeito único que ele se apaixonou.
Conheceram-se no metrô, era por volta de 20h. Ele estava voltando do trabalho, cansado daquela pacata segunda-feira, cheia de tarefas acumuladas do final de semana.  Ela estava indo provavelmente para casa, depois dos seus ensaios de Ballet. Com os cabelos presos daquele jeito que as bailarinas prendem, eu não sei bem o nome, o rosto em evidência, um olhar concentrado, dava para imaginar que ela estivesse ouvindo música clássica com o fone de ouvido que ela usava. Ele ficou prestando atenção.
Quantas pessoas diferentes passam por um metrô, não? E justo aquela bailarina, com um tom distante, do tipo que tem muito a fazer, levou-o a parar de vagar entre pensamentos e repará-la. Ela era bonita. Um pouco depois ela percebeu o olhar do rapaz voltado para ela. Deu-lhe um sorriso tímido e disfarçou. Afastou-se um pouco, sentou-se por um tempo, continuou lendo o que trazia em mãos, ainda com os fones de ouvidos. Na parada seguinte ela desceu.
Ele não tinha reparado nela com segundas intenções. Talvez até sem intenção alguma. Apenas pegou-se olhando para ela. Não existe essa de amor à primeira vista. Não estava se apaixonando. Achou-a bonita e peculiar, diria até curiosa. Mas só isso. Sabe quando você está com o pensamento longe, fazendo planos ou revendo fatos, e de repente volta à realidade? Foi isso o que aconteceu. Só que quando voltou a si ela estava em sua direção. 
Não pensou nela a noite toda, não planejou segui-la ou convidá-la para sair. O tempo se encarregou disso.



11 de abril de 2013

Pedras do caminho


Ela está seguindo seu caminho, com passos lentos, de quem não tem pressa, mas certeza. Depois de tantos tropeços e pedras, é claro que ela deixou de correr esbaforida querendo chegar, sabe-se lá onde. Verdade seja dita, quando ela se apavorava assim, mal sabia o que pretendia. Hoje ela é diferente, quase irreconhecível.
Há quem duvide e estranhe, porém, ela está coberta de razão. Sempre teve planos incomuns e por ora simples, era sincera na forma de explicar os pensamentos bagunçados da sua cabeça só pra tentar organizá-los. Ela, meu caro, sempre soube o que quis, só não tinha coragem de ser fiel a si e enfrentar tudo isso. Se hoje ela dá as costas para o que dizem, e ainda sim consegue sorrir de forma doce e sutíl, é porque ela assumiu a si mesma depois de tantas desilusões.
Você sabe o quanto ela sempre foi apaixonada. Pela vida, por histórias de amor. Até então, suas experiências não passavam de contos. Mesmo assim ela se entregou a cada um que viveu, fechou capítulos com lágrimas, arrancou páginas, apagou outras. Se ela pudesse, eu sei que faria de novo, embora tenha sofrido, e muito, ela superou. Todas as dificuldades deixaram marcas, ela insistia em me perguntar quando ia passar, sempre passava. Depois de você, ela perguntou com muito mais frequência.
Como dá pra notar, esse dia chegou, embora eu duvidasse. Se você quer saber, a maior dificuldade dela foi aceitar que vocês tinham objetivos diferentes. Que são pessoas opostas, disso ela sabia, convivia com isso. Só que de alguma forma, você a fez acreditar que sonhavam os mesmos sonhos. E quando você se foi, dizendo que aquele era seu maior sonho, e que não podia perder a oportunidade, ela não conseguiu aceitar. Achava que você a levaria, que pretendia ficar com ela para sempre, ela achou que fazia parte disso. Não, ela não fazia. Era sempre sobre você e sua carreira, seus planos, seus desejos. Ela se adaptou a todas as suas vontades, reorganizou os sonhos dela para ir com você onde você fosse, você não percebeu nada disso, não é mesmo?
Ela gostava você, queria estar por perto, cuidar de você, conquistar isso contigo. Mas você nem ligou, assim que tudo deu certo para você, foi um adeus. Como se ela fosse só seu apoio para aquele momento de dificuldade, e depois, agradeceu, pegou suas coisas e foi. Ela quase pediu para ir junto sabia? Quase perguntou, mas e eu? e nós? Só que naquele momento ela teve que decidir se era isso mesmo que ela queria, porque você não ia mudar, seu foco era outro. Ela queria amor, carinho, queria ser a primeira opção. Ela esperava ser o maior dos seus objetivos, mas percebeu que jamais seria. Então ela te deixou ir, não perguntou nada do que quis, te deu um abraço forte, agradeceu pelos elogios que você fez por tudo que ela foi, e assim, com o coração em pedacinhos, guardou tudo para si. 
Se você encontrá-la por aí, não fique sem jeito, ela vai sorrir, e vai falar com você. No fim das contas, ela até agradece por tudo o que passou. Foi nessa desilusão que ela chegou a ser quem queria ser.



Texto para fazer parte do Projeto "Blogagem Coletiva" da Karine Rosa.
Tema: Desilusão.


2 de abril de 2013

Por amor

Existe um versículo na Bíblia que diz "Suportai-vos uns aos outros no amor". É evidente, Deus sabia que talvez não fossemos capazes de amar ao próximo como a si mesmo, e que muitas vezes seriamos obrigados a nos suportar. Ainda sim, compreendendo toda a nossa fraqueza e pequenez, pediu que ao menos nos suportássemos no amor.
Acho que essa palavra é forte, requer atitude. Su-por-tar. Convivemos com pessoas tão distintas de nós, crenças, costumes e essências difíceis. De prontidão rejeitamos. No entanto, algumas vezes temos de estar  corriqueiramente com essas diferenças, e embora haja rejeição ao jeito do próximo ser, ainda sim temos de encarar dia a dia pessoas assim, e rejeitar apenas, não é suficiente.
Para um convívio sadio é preciso aquela coragem. Mesmo que pareça impossível, deixar de julgar as pessoas e escolher não gritar aos quatro ventos o quanto tal personalidade é diferente da sua, ou todos os defeitos e maus comportamentos requer maturidade. Isso é suportar no amor. Ser tolerante por ter a consciência de que é necessário. Se todos nos suportássemos talvez tivéssemos um mundo menos homofóbico e menos preconceituoso.
Embora você não seja Cristão, não há como negar que Jesus existiu e foi coerente nas suas atitudes e ensinamentos. Deu-nos um bom conselho. Suportar no amor nos leva a aceitar as diferenças, aceitando-as logo estaremos amando. Como não se encantar com tamanha sabedoria?





25 de março de 2013

Go on

Você tenta, e erra, tenta e acerta. Assim é a vida. Por mais que seja decepcionante equivocar-se, pensando bem, é com essas falhas que aprendemos a tomar atitudes melhores. Calar, falar, fazer ou deixar que seja feito. Se isso soa tão clichê por que não aprendemos?
Infelizmente é preciso mais de um tropeço para aprender a andar de bicicleta. Primeiro a gente tira só uma rodinha adicional, contamos com os conselhos da mãe, ou do melhor amigo, e depois, quando tentamos seguir nossos próprios passos, ainda assim sofremos quedas. A vida é um equilibrar-se sobre as intempéries. 
As escolhas são cotidianas, e por isso, nossos erros também. Mas se de cada erro tirarmos um novo aprendizado, se estivermos atentos, nossas falhas não se repetirão, e aprenderemos a lidar com a dificuldade de uma forma mais aprimorada a cada circunstância. Cabe a nós mantermos os olhos abertos, e o coração disposto a aprender consigo. 
A gente vai se desafiando, vencendo a si mesmo e superamos os limites mais arriscados, os nossos próprios. Há quem diga que a vida é complicada, eu só acho que vamos pegando o jeito. Afinal, quem aprende a andar de bicicleta nunca esquece, não é isso que dizem?



10 de março de 2013

O amor que guardei

Ela acordou como se tivesse tomado uma dose de coragem na noite anterior, mas a verdade era que  tinha recebido a noticia da qual ela mais fugia, aquele coração já estava ocupado. Mesmo assim, pensou no que ia dizer, desejou até que ele estivesse por perto para poder falar tudo o que sempre quis, olhando-lhe os olhos. Tinha muitas outras coisas para fazer, ainda sim manteve-se fiel a si mesma. Ia contar.
Escreveu tudo. Como aquilo tinha começado, e como os sentimentos faziam o coração dela dar cambalhotas de confusão. Ela não acreditava ser por acaso. E eu tenho que concordar, ela tinha um romance digno de um filme hollywoodiano acontecendo diante de si. E a protagonista era ela.
Depois de medir milimetricamente cada palavra, e surtar com aquela falta de ar, terminou. Leu, releu. Teve certeza que era isso mesmo. Segurou o dedo indicador sobre o botão. Pensou, leu novamente. Respirou fundo, e ficou lá, estupefata. Com o coração na mão, pronto para ser entregue. E antes mesmo que pudesse acreditar no que iria fazer, fez. Deu ENTER. Feito. Nada podia ser mudado, nem uma palavra ou vírgula. Não tinha como voltar atrás. 
 Ela sabia a verdade, sabia o que estava por vir, não queria mudar coisa alguma, era apenas uma prestação de contas, dela, com ela mesma. O coração dele estava ocupado, e para ela, provavelmente era correspondido, quem haveria de não ama-lo? Ele era único, daqueles que não se encaixam em nenhum padrão desses que adoramos rotular os homens. Não reagia a nada, e suas atitudes eram sempre reversas ao "previsível". 
Contudo, ela estava feliz consigo mesma. Sentido-se poderosamente corajosa. Atitudes assim não eram de seu feitio. Ela era tímida demais para assumir em voz alta. Depois de falar para ele que gostava dele mais do que deveria, antes de desligar o computador e desaparecer dali como se nada tivesse acontecido, cochichou para si "Seja feita a vontade de Deus".


22 de fevereiro de 2013

Make your choice

 Escolhi a minha estrada e não olhei para trás.
Trouxe quem quis vir, e estava certa de que este caminho era o que eu sempre desejei. Para meu orgulho, não estava enganada
Nunca pretendi voltar, nada daquilo me fazia falta, e esse novo mundo me preenchia de forma surpreendente. Descobri uma felicidade inimaginável. Realizei os sonhos mais inquietos do meu coração. Conheci pessoas diferentes do que eu estava acostumada, e conquisto coisas que nem sabia serem possíveis.
Quando o tempo traz aquilo que deixei, é só pra me convencer do quão certas foram as minhas escolhas, e especialmente do quão preparado tudo isto estava para mim. É como se fosse um lugar onde tudo aquilo que eu sonhei estivesse diante de mim, em proporções muito maiores, e ao meu alcance.
Depende de nós.