Ela era diferente. Insistia em
ser assim. Odiava padrões, rótulos ou valores impostos pela sociedade. Na
verdade ela era bem crítica, quase insuportável se não fosse pela sua doce
forma de explicar porque ela era assim. E foi por esse seu jeito único que ele
se apaixonou.
Conheceram-se no metrô, era por
volta de 20h. Ele estava voltando do trabalho, cansado daquela pacata
segunda-feira, cheia de tarefas acumuladas do final de semana. Ela estava indo provavelmente para casa,
depois dos seus ensaios de Ballet. Com os cabelos presos daquele jeito que as
bailarinas prendem, eu não sei bem o nome, o rosto em evidência, um olhar
concentrado, dava para imaginar que ela estivesse ouvindo música clássica com o
fone de ouvido que ela usava. Ele ficou prestando atenção.
Quantas pessoas diferentes passam
por um metrô, não? E justo aquela bailarina, com um tom distante, do tipo que
tem muito a fazer, levou-o a parar de vagar entre pensamentos e repará-la. Ela
era bonita. Um pouco depois ela percebeu o olhar do rapaz voltado para ela.
Deu-lhe um sorriso tímido e disfarçou. Afastou-se um pouco, sentou-se por um
tempo, continuou lendo o que trazia em mãos, ainda com os fones de ouvidos. Na
parada seguinte ela desceu.
Ele não tinha reparado nela com
segundas intenções. Talvez até sem intenção alguma. Apenas pegou-se olhando
para ela. Não existe essa de amor à primeira vista. Não estava se apaixonando.
Achou-a bonita e peculiar, diria até curiosa. Mas só isso. Sabe quando você
está com o pensamento longe, fazendo planos ou revendo fatos, e de repente
volta à realidade? Foi isso o que aconteceu. Só que quando voltou a si ela
estava em sua direção.
Não pensou nela a noite toda, não planejou segui-la ou
convidá-la para sair. O tempo se encarregou disso.





